O mundo paralelo do desporto universitário

O desporto universitário em Portugal é uma realidade escondida. Muitos dos alunos do ensino superior português desconhecem que existe um sistema organizado de desporto universitário, através de associações estudantis, com participação nas competições nacionais e internacionais.

Com 7972 filiados registados em 2012, o desporto universitário português passa despercebido num universo de mais de 400.000 estudantes do ensino superior. A falta de divulgação é um dos principais problemas, mas a falta de praticantes de desporto é geral, e não apenas desta faixa etária. “Infelizmente, somos um país com poucos hábitos de prática desportiva, e acho que o desporto universitário reflecte esses poucos hábitos que temos”, afirma Ricardo Nascimento, secretário-geral da ADESL (Associação Desportiva de Ensino Superior de Lisboa).

Em Lisboa, onde se encontra a maior percentagem de alunos que participam no desporto universitário, compete à ADESL a organização das competições. Ricardo Nascimento explica que a instituição funciona “quase exclusivamente com Associações de Estudantes, que não têm carácter profissional”, mas acrescenta que existem excepções: o Gabinete de Desporto da Universidade de Lisboa e as equipas que representam as instituições militares, que também têm alguns profissionais envolvidos na área.

Já a nível nacional, é a FADU (Federação Académica de Desporto Universitário) a entidade responsável pela atribuição dos títulos nacionais e regionais, e pela representação nacional. É uma das duas únicas federações multidesportivas em Portugal, que conta com 35 modalidades registadas em 2012.

Em conjunto com estas instituições, as associações de estudantes de todo o país colaboram com a organização do desporto universitário. São as associações de estudantes que têm a iniciativa de contactar com a ADESL e a FADU para a criação de equipas das diversas modalidades. A partir do momento em que são registadas nestes órgãos, e mediante o pagamento de uma quantia garantida pelo orçamento da respectiva associação de estudantes, as diversas equipas têm lugar nas competições organizadas por ambas as entidades.

“O desporto universitário é visto como uma oportunidade de manter a prática desportiva sem ter de alterar a vida académica”, refere Ricardo Nascimento, que acredita que são as faculdades que têm de criar condições para proporcionar aos alunos uma experiência universitária completa, conjugando desporto e estudos académicos.

Porém, o investimento do Estado é pouco, e os custos de toda a organização das equipas, inscrições e materiais são suportados pelas associações de estudantes. “O apoio do Estado que temos é feito com a cedência gratuita das instalações, quer para nós quer para as equipas, e há um subsídio atribuído anualmente pela FADU que está inserido no protocolo que a federação assina com a secretaria de Estado”, explica Ricardo Nascimento.

Relativamente a Lisboa, o secretário-geral da ADESL lamenta a falta de apoios, acrescentando que o município também não se envolve minimamente, pelo que não existe qualquer relação entre este órgão autárquico e o desporto universitário. Assim, a falta de divulgação do universo desportivo universitário tem sido contornada apenas pela ADESL, pela FADU e pelas associações de estudantes, que através dos seus sites oficiais e do Facebook comunicam com o público em geral, mas com especial atenção para os seus associados e clubes académicos. Cabe, contudo, às diversas associações de estudantes a divulgação directa junto dos alunos do ensino superior.

Na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa, a associação de estudantes assume claramente o papel de divulgação do desporto universitário, apelando a uma maior participação e envolvimento por parte dos alunos. Henrique Costa, um dos responsáveis pelo departamento de desporto da AEFCSH (Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas), explica como fazem essa publicidade: “Publicitamos o desporto universitário na faculdade através de cartazes, e através de eventos no Facebook, nos quais anunciamos os jogos para que os alunos possam assistir e apoiar a equipa, e informamos sobre os desportos que estamos a oferecer, para os alunos poderem participar”.

No entanto, essa informação nem sempre chega aos alunos, e Henrique Costa afirma que os alunos apoiam pouco os colegas que praticam desporto nas equipas que a faculdade organiza e oferece: “é muito difícil os alunos da faculdade apoiarem uma equipa que tem pouca afinidade com eles”.

Este sentimento de desconexão entre os alunos e as equipas da faculdade a que pertencem parece ser comum, tendo em conta que o desporto universitário em Portugal não tem indícios de ser levado a sério. Steve Grácio, antigo responsável pelo departamento de desporto da AEFCSH, considera que “devíamos seguir o exemplo dos Estados Unidos, onde o desporto universitário é levado muito a sério, com bolsas de estudo inclusive, enquanto nós não temos tradição nenhuma”.

Apesar das dificuldades que se sentem, são muitos os alunos que entram no desporto pela primeira vez nesta fase das suas vidas. Todavia, como contraponto, existem muitos alunos que se envolvem inicialmente com o desporto universitário, mas que acabam por desistir por inúmeras razões, como falta de tempo, deslocações constantes até ao local de treinos, ou realização do programa Erasmus no segundo semestre, entre outras.

As associações de estudantes tentam contornar o problema das desistências com um estatuto especial para os alunos que praticam desporto pela faculdade: o estatuto atleta-estudante. “São pequenas regalias ou recompensas dadas aos alunos, quer pelo adiamento do prazo de entrega de algumas avaliações contínuas, quer pela alteração de datas de exames ou de testes, e noutras faculdades pela marcação de uma época especial ou pelo acesso à época especial que já existe, dos atletas que representam a associação de estudantes”, explica Ricardo Nascimento.

Bernardo Freitas, aluno da School of Business and Economics (SBE) da Universidade Nova de Lisboa, é atleta de alto rendimento na modalidade de vela, e possui o estatuto atleta-estudante. “Os benefícios não são muitos”, diz o atleta, que já participou nos Jogos Olímpicos de Londres, embora apenas se tenha filiado no desporto universitário em 2012. “Posso escolher os meus horários consoante a minha disponibilidade, não preciso de estar a lutar pelas vagas, e consigo adaptar-me à faculdade que é para conseguir treinar ao mesmo tempo. Posso ir a época especial, consigo justificar que não estou presente na avaliação contínua e que vou a exame no fim do ano”, revela. No entanto, refere que este processo por vezes é complicado de gerir, porque está dependente da cooperação dos professores, sendo uns mais acessíveis do que outros.

Bernardo treina todos os dias no Clube Naval de Cascais, onde faz o “treino de mar”, e no ginásio da Quinta da Marinha, de quem tem patrocínio. Conta ainda com o apoio da Câmara Municipal de Cascais e dos cafés Buondi. No que toca ao Estado, por ter ganho um diploma nos Jogos Olímpicos de Londres, tem uma bolsa anual durante quatro anos, e uma mensal, que é uma espécie de ordenado.

Contudo, o estatuto de atleta-estudante ainda não existe em todas as faculdades envolvidas no desporto universitário. No caso da FCSH, decorre uma luta permanente pela obtenção desse estatuto, já desde o mandato anterior da associação de estudantes. “Nós íamos tentar que quem jogasse nas equipas da faculdade tivesse um estatuto especial, nem que seja um exame a mais do que a maioria das pessoas, o que podia motivar algumas pessoas a não faltar aos treinos numa semana terrível de exames, por exemplo, e até levar mais pessoas a treinar”, explica Steve Grácio, antigo responsável pelo departamento de desporto da AEFCSH. No momento presente, Henrique Costa declara que esse trabalho para a obtenção do estatuto está ainda a decorrer, mas sem resultado até agora.

 

Divulgação e investimento

“Portugal é futebol, todas as outras modalidades têm permanência nos meios de comunicação muito baixa”, diz Joana Meira, responsável pelo departamento de comunicação e imagem da FADU. “Temos tentado ser mais activos na comunicação, é um trabalho feito diariamente e tentamos sempre fazer mais e melhor”, continua a principal responsável por manter os sites respeitantes à FADU actualizados. Joana Meira é também a pessoa responsável por enviar pequenos comunicados à imprensa, numa tentativa de destacar a importância desta federação a nível nacional: “O meu trabalho é divulgar e conhecer os meios de comunicação, e enviar informação, mesmo sem ser pedida”, explica.

O trabalho de divulgação que realiza abrange várias redes sociais na internet, e até algumas publicações em papel, desde o site oficial da FADU, ao Facebook, onde são divulgadas informações relativas às competições e colocadas as fotos dos eventos, ao Youtube, com o canal FADUTV, onde são colocados vídeos das actividades e iniciativas desta federação, passando pelo Twitter e pelo Google +.

Em colaboração com a FISU (International University Sport Federation), a FADU participa num programa mensal na Eurosport, com a duração de 25 minutos, sobre desporto universitário, e em Portugal participa no programa semanal Desporto2, com a rubrica “Magazine do Desporto Universitário”, que passa na RTP2. A FADU colabora ainda directamente com o Jornal O Jogo, e o Canal UP – Universidades e Politécnicos. O Canal Superior está também bastante ligado à FADU, embora não exista uma parceria oficial entre estas duas entidades: “É uma relação estreita, apesar de não terem uma parceria formalizada”, refere Joana Meira.

No que toca às faculdades, a divulgação tem dependência directa do orçamento das associações de estudantes, e Ricardo Nascimento explica que “os problemas que as associações de estudantes têm na questão financeira para todas as suas actividades também se reflectem no desporto e sua divulgação”. Na opinião do secretário-geral da ADESL, era necessário investir na comunicação e na divulgação, mas isso tem custos, a nível financeiro e de tempo dispensado.

Ricardo Nascimento considera que “era necessário que, ao contrário do que acontece neste país, as instituições de ensino superior reconhecessem o desporto como fundamental para o desenvolvimento e formação do ser humano”. Informa ainda que todos os estudos indicam a prática desportiva regular como portadora de benefícios, a nível pessoal, de formação académica, e do bem-estar, e que a prática desportiva de competição traz vantagens como espírito de grupo, capacidade de liderança e integração numa equipa. Acrescenta que todas estas funções são primordiais para obter sucesso na vida pessoal e profissional, mas lamenta que sejamos um país que investe muito pouco no desporto.

Há muito mais trabalho a realizar nesta área, de forma a melhorar as condições do desporto universitário em Portugal. O aumento da divulgação é um ponto essencial, de modo a que mais pessoas se consigam envolver nas actividades oferecidas pelas associações de estudantes e se possa promover uma maior prática desportiva no ensino superior, considerada como essencial nesta fase da vida. O objectivo passaria também por tornar a prática regular de desporto num hábito que se mantenha ao longo da vida dos portugueses, algo que ainda não acontece no nosso país.

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