“Quero ser um Google”

Carlos Silva, de 30 anos, é membro da dupla de música eletrónica e dubstep de nome Karetus. Tem interesse pelas mais variadas áreas e uma enorme cultura geral, o que influencia o processo criativo da sua música e o motiva a querer sempre mais.

Os amigos descrevem-no como idiota. Vêem-no como uma pessoa com muitas ideias, uma incrível criatividade e uma visão muito ampla e geral do mundo. O seu sonho, já desde criança, era trabalhar com música e vídeo. Queria utilizar “sons robóticos” na música, algo futurista e que parecia loucura numa altura em que a Internet não existia e a música era massificada pela televisão.

“Lembro-me do Carlos, quando éramos miúdos, vir com umas ideias sobre sons robóticos, umas ideias malucas na altura porque não havia dubstep”, conta André Reis, com quem Carlos faz dupla no seu mais recente projeto Karetus. “Mas ele dizia que o sonho dele era que aquelas sonoridades fossem postas em música. Uns anos mais tarde, esse tipo de sons até se tornaram moda”.

Conheceram-se através do irmão de André, Ricardo Reis, com quem Carlos fez o 7º ano, no Cacém. Começaram por passar tardes juntos à volta da Playstation, e, em muitas dessas maratonas, jogavam Music 2000, um jogo sem níveis em que se juntavam peças e se criavam faixas. Já nessa altura se notava claramente o gosto pela música que estes três amigos sentiam. Foi então que o sonho passou a ser um projeto mais completo, envolvendo música, vídeo e espetáculo com narrativa, história e conceito.

“Sempre quisemos fazer, com poucos meios, o máximo possível e o melhor que conseguimos”, diz Carlos Silva, que, juntamente com o seu amigo Ricardo Reis, começou desde cedo a fazer vídeos. “A minha mãe tinha uma associação de teatro e atividades culturais no Cacém, o que nos deu algumas oportunidades para nós fazermos alguns vídeos”, conta Ricardo. “Isso foi ótimo porque na altura não tínhamos qualquer tipo de experiência, nem de material, nem nada, mas entusiasmou-nos bastante, e tínhamos algumas ideias muito loucas, muito fora do normal”.

O convite da associação de teatro para realizarem alguns projetos inspirou os dois amigos a levarem a câmara para a escola e filmarem os mais variados cenários, como apanhados e falsas reportagens que, segundo Ricardo, “destabilizavam bastante o ambiente lá na escola”, porque ninguém estava à espera do que iam fazer. Mais tarde, começaram a levar as coisas mais a sério e a fazer curtas-metragens, videoclips e “pseudo-pilotos de televisão”, juntando mais alguns amigos da mesma escola.

Carlos e Ricardo seguiram juntos para a António Arroio, uma escola secundária dedicada às artes. Foi lá que os seus projetos tomaram uma maior dimensão: candidataram-se, logo no primeiro ano, à associação de estudantes. Fizeram, para a campanha, um vídeo onde Carlos era o protagonista, e espalharam pela escola cartazes com a sua cara. O resultado foi o desejado: ganharam a campanha.

Ao chegarem ao mandato efetivo, resolveram ser inovadores perante o que a escola estava habituada. “Propusemos uma série de atividades em que pudéssemos incluir as pessoas da escola e que pudéssemos fazer coisas que fizessem a diferença, marcassem e tivessem uma influência real nas pessoas”, conta Ricardo. “Fizemos um canal de televisão na escola, uma rádio, concursos para explorar a parte criativa e de pintura da vida das pessoas, workshops, palestras, um jornal, revistas, exposições”, enumera orgulhoso.

O curso de técnico de som preparou Carlos para o seu trabalho atual, mas quando o terminou realizou trabalhos nos mais diversos locais, com funções que não correspondiam à sua formação. Trabalhou em Call Centers da Vodafone e da PT, fez alguns trabalhos a filmar casamentos, outros como técnico de som, como na Fnac, onde fazia assistência aos músicos que davam concertos na loja, e até trabalhou no Hospital da Luz como assistente de médico.

Há cerca de cinco anos, decidiu voltar a dedicar-se ao que mais gostava e, possivelmente, ao que melhor sabia fazer: a área audiovisual. Entrou em contacto com Ricardo e voltaram a trabalhar em vídeo, fazendo curtas-metragens e até vídeos de música, como foi o caso dos videoclips da Aurea e dos Expensive Soul. Também há cerca de cinco anos, com o irmão mais novo de Ricardo, André Reis, fez trabalhos de ghost production, termo que significa produção não assinada, ou seja, o nome de quem realizou o trabalho não é revelado.

“Os primeiros projetos que fizemos juntos não tinham nada a ver com o que fazemos agora”, conta André. “Foi uma oportunidade que tivemos na altura, de um produtor famoso, fazer umas versões e umas misturas quase pop, e nem sequer assinámos com o nosso nome, mas acabou por ser importante porque pode ter sido o lançamento para o que fizemos mais tarde”.

Estes trabalhos, já no âmbito da área audiovisual em que Carlos queria trabalhar, abriram algumas portas à dupla, mas não a realizavam a nível criativo. E o sonho de um projeto de música original começou a ganhar forma. “Não estávamos a pensar em sequer viver disso, naquele momento só queríamos fazer música e que as pessoas gostassem da nossa música, mas sempre com o sonho”, revela Carlos Silva, relativamente ao momento em que se juntou com André Reis para começar a dupla Karetus. “Levei as minhas coisas para a casa do André, montámos um estúdio nosso, com o nosso material, e começámos a fazer música original, mas sempre com os mesmos objetivos de que um dia ia resultar”, conta Carlos.

A verdade é que esta dupla, nascida e mantida no Cacém, cresceu mais do que eles poderiam imaginar e, hoje em dia, chovem convites para concertos ao vivo. A agenda dos Karetus é muito preenchida e variada: do Norte ao Algarve, passando por Lisboa e a Semana Académica, para a qual foram a primeira confirmação em 2013, sem esquecer os concertos em Paris e mesmo na Suíça, de onde recebem muito apoio de portugueses emigrados.

Os Karetus estão a crescer cada vez mais, mas ainda recordam os seus fãs do início: “Primeiro tivemos sucesso lá fora e, apesar de gostarmos muito do português, no início não tínhamos muitos portugueses a seguirem-nos nas redes sociais, então fazíamos a comunicação em inglês”, explica Carlos. Ainda hoje a dupla sente o apoio dos fãs de fora de Portugal, nomeadamente do Brasil, onde valorizam muito a língua portuguesa.

Contudo, Carlos recusa-se a ter apenas interesse na música e no seu projeto. Embora tudo o que diz respeito aos Karetus, desde a criação da música à atualização das redes sociais, lhe ocupe os dias de segunda a sábado, Carlos não perde a oportunidade de jogar futebol com alguns amigos nas suas folgas: “Ainda jogo futebol aos domingos e, quando posso, também aos feriados, o clássico futebol de cinco”, diz Carlos. André Reis, com quem faz dupla, até brinca com a situação: “Normalmente atuamos aos fins-de-semana, e vimos completamente estoirados, de grandes viagens às vezes, e ele no dia a seguir diz ‘combinei ir jogar à bola com não sei quem’”.

A ligação ao desporto sempre esteve presente na vida de Carlos: já praticou judo, taekwondo, futebol federado pelo Estrela da Amadora, basquete federado pelo Queluz, e voleibol federado pelo Benfica. “Sempre gostei de fazer desporto, principalmente desporto coletivo, e acho que o desporto é muito importante na vida de uma pessoa, dá balanço e equilíbrio no dia a dia”, esclarece Carlos.

Para além da sua segunda paixão, o desporto, Carlos gosta de se manter atualizado e aumentar a sua cultura geral diariamente. Para isso, costuma fazer pesquisas na Internet sobre os mais variados assuntos e ler bastante, mas não vê televisão. “É uma pessoa que não gosta de perder tempo a fazer coisas que não sejam úteis”, explica Ricardo, que considera que o seu melhor amigo tem “uma cultura incrível, é das pessoas com quem dá muito gozo falar”.

André Reis, irmão mais novo de Ricardo e com quem Carlos faz parceria no seu projeto, diz, num tom de brincadeira, que “o Carlos é a Wikipedia humana”. E acrescenta: “O Carlos deve ser a pessoa que eu conheço que consegue reter mais coisas que vê e lê, não sei onde ele vai buscar tanta coisa, e acho que mais facilmente consigo tirar uma dúvida com o Carlos do que na Wikipedia”.

“Tenho um interesse profundo por coisas que não interessam a ninguém, quero absorver tudo, quero ser um Google”, declara Carlos, meio a brincar, meio a sério. O gosto por conhecer novas culturas e pessoas manifestou-se desde cedo. Carlos afirma que o seu Skype é muito multicultural, e que aproveita uma parte do seu dia para falar com pessoas de todo o mundo através deste meio. “Sou um cidadão não de Portugal, apesar de ter aqui os meus amigos e gostar muito do meu país, mas um cidadão do mundo. Sou mais uma pessoa do planeta terra do que uma pessoa de Portugal, cada vez mais sinto isso”, afirma Carlos com um sorriso.

O seu trabalho atual permite-lhe ainda cumprir o seu grande sonho de viajar. “Uma das grandes vantagens da minha profissão é viajar, conhecer os sítios e as pessoas, estar exposto a muitas coisas, é um sonho”, diz com entusiasmo. Cátia Almeida, namorada de Carlos há quatro anos, confirma esta paixão: “Gosta muito de viajar e conhecer sítios novos. E é ótimo viajar com ele para um sítio que ele conheça, porque ele conhece mesmo tudo e lembra-se de tudo, tem uma grande memória”, declara, com visível agrado.

Entre os seus demais gostos e passatempos estão coisas “tipicamente portuguesas”, como estar com os amigos para ver um jogo de futebol, beber cerveja, comer petiscos, e apreciar bons pratos de gastronomia portuguesa. Mas, ao mesmo tempo, é caseiro e gosta de estar com a família, como conta a mãe, Amélia Santos.

A sua ligação fácil com as pessoas é uma qualidade que todos aqueles que rodeiam Carlos admiram. “Desde miúdo teve muita facilidade de comunicação”, diz a mãe. “Uma vez estava na praia, com quatro ou três anos, e eu deitei-me um bocadinho e depois não o vi. Eu entrei em parafuso, andei à procura dele, e às tantas estava numa grande conversa com um casal de idade, a conversar e a almoçar, era um perigo quando era miúdo”, conta por entre risos.

No entanto, Carlos reconhece que tem alguns pontos negativos. “Cabeça no ar é o meu pior defeito, porque implica muitas coisas”, confessa Carlos. “Mas também consegui, ao longo do tempo, trabalhar com os meus defeitos”, afirma. Cátia Almeida considera que há uma grande diferença entre o Carlos profissional e o Carlos na vida pessoal: “É muito perfeccionista na vida profissional, não tem nada fora do controlo, sabe perfeitamente tudo o que vai acontecer e está dedicado horas e horas. A nível profissional é muito pontual, mas na vida pessoal não, é muito mais desorganizado”.

No seu trabalho é possível ver influências da sua vida pessoal, como o facto de ser meio angolano por parte da mãe, pelas viagens que fez, pelos locais que frequentou enquanto criança e adolescente, pelas pessoas que conheceu ao longo da sua vida e por tudo o que leu e pesquisou. No entanto, dá particular relevo, afirmando como uma das pessoas que mais o marcaram, a Ana Pinto, mãe dos seus amigos Ricardo e André Reis. “Ela é uma segunda mãe, pelo menos a nível das artes, porque ela é produtora de teatro e eu ia por arrasto ver essas peças minimalistas só com um ator a falar”, conta Carlos. A verdade é que Carlos adora teatro, e quando era mais novo queria ser ator, mas a música fê-lo mudar de ideias.

“Estou a conseguir ter uma vida numa coisa que eu gosto e sempre quis fazer”, diz Carlos. “Acho que neste momento cerca de dez por cento das pessoas fazem isso, trabalham na área que gostam, é uma raridade e um privilégio”, revela Carlos, com visível felicidade. Nos seus trabalhos, a dupla admite que as suas influências partem de bandas como The Chemical Brothers, Daft Punk, The Prodigy e Fatboy Slim, do início da década de 90. “Nunca vamos buscar exemplos da nossa área geográfica, nunca vamos ver o melhor que se faz em Portugal. Gostamos do mundo global, e vamos sempre ver o melhor que se faz no mundo”, explica Carlos, relativamente ao seu projeto Karetus, mostrando assim a sua vontade de constante inovação e crescente conquista do mundo musical. “Vamos tentar sempre ser os melhores do mundo!”, remata Carlos Silva.

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