A mulher que já nasceu Avó

É de Monchique que vem a família Avó. Um nome pouco comum, mas conhecido na pequena terra do Algarve, conta Cândida Avó. “As pessoas sempre conheceram o meu pai por José da Avó e a minha tia Maria da Avó. Até a minha mãe, que era Maria da Silva, mas lá na aldeia ninguém a conhecia por Maria da Silva, era a tia Maria da Avó por causa do meu pai”, explica.

Cândida Catarina da Silva Avó tem 73 anos e vive agora em Sintra. O seu irmão José da Avó vive em S. Luís, no Alentejo, e a sua irmã Isaura da Avó em Monchique. Os três nasceram em Sabóia, após os pais se terem mudado de Monchique, onde nasceram os dois filhos mais velhos, Maria da Avó e Manuel da Avó.

“O meu avô era Manuel da Avó, e somos todos ‘Avós’. Mas ele tinha um irmão que tinha o apelido de Poucachinho. Não percebo porque é que um era Avó e o outro era Poucachinho, mas era, que eu lembro-me de visitar o meu tio velhote já na cama, era o tio Manuel Poucachinho”. Cândida conta que na pequena aldeia de Monchique existia também o apelido Poucaroupa, e no meio de todos estes apelidos, atualmente pouco comuns, o nome Avó não era motivo para alvo de chacota.

Cândida refere ainda que o nome Avó e a fama que lhe era adjacente, de uma família com força e moral correcta, percorriam as terras do Algarve e baixo Alentejo. E relata um episódio em particular. “O meu pai era cantoneiro e primeiro esteve na zona do Algarve, numa caseta que havia no Tanque da Serra, depois mudou-se para o Alentejo. O meu pai tinha fama de ser muito mau, porque era uma pessoa muito recta e não deixava que ninguém lhe pusesse o pé na orelha, como se costuma dizer. Nessa altura eram os cantoneiros que multavam as pessoas, e quando havia pessoas que tinham mania de passar a perna aos outros, ele aplicava-lhes a multa. Mas o meu pai era uma pessoa muito recta, não gostava que ninguém fizesse nem pouco dele nem pouco de ninguém”,, conta Cândida.

“Quando ele se mudou para Sabóia havia lá um senhor que era o Regedor, porque nessa altura não havia GNR nem nada, que um dia chegou ao pé do meu pai e disse: ‘você é que é aqui o cantoneiro novo?’, ‘sou’, respondeu o meu pai, ‘ah ainda bem, estava para vir para aqui um José da Avó que a gente estava todos com medo dele!’. E depois o meu pai disse ‘o José da Avó sou eu’, e ele ficou todo atrapalhado!”, diz por entre risos.

Cândida confirma que, para além da sua família, não conhece muitos mais ‘Avós’, como lhes chama, mas admite que é possível que esse nome exista noutras famílias que não a sua. “Ali em Alcácer do Sal, uma vez que eu e o meu irmão andávamos na monda do arroz, havia  um rapazinho a trabalhar nas salinas, acho que também tinha o apelido de Avó, mas foi o meu irmão que o conheceu”. Mais recentemente, quando foi a uma clínica em Sintra, encontrou uma enfermeira que lhe disse que o sogro era também Avó. Embora exista a forte possibilidade de ser um parente seu de Monchique, Cândida nunca aprofundou o assunto.

“É um nome pouco conhecido. Quando eu vou aí a um sítio qualquer, e agora que se tem os computadores que já não têm o acento, toda a gente me pergunta: ‘é Ávo ou Avó?’, porque Ávo não acham jeito, e Avó não tem lá o acento. Eu digo ‘sou Avó, agora já me roubaram também isso depois de velha’. E toda a gente acha graça com o nome de Avó porque é um nome que se ouve pouco. Outros dizem assim: ‘olha antes de ser já era! Já é avó?’, eu digo ‘já sou bisavó’, ‘ah já é bisavó, ah que engraçado!’”.

Cândida tem dois filhos, quatro netos e dois bisnetos. Contudo, apenas a sua filha mais velha tem o nome Avó, e é muito provável que este apelido venha a ser descontinuado na sua família. “Tenho, tenho pena”, responde com tristeza perante a possibilidade do nome vir a desaparecer. “Na nossa casa, quando a gente registou a Ivone, o homem disse que não tinha graça ser Ivone Avó Costa, e então pôs Ivone Silva Avó da Costa, ficou com os meus dois apelidos porque o registo quis. Quando foi o Rui, puseram o mesmo obstáculo, e acabou por não ficar com Avó, ficou só com Silva. Rui Manuel Silva da Costa”, relembra.

Cândida ainda deposita, porém, alguma esperança nos filhos dos seus irmãos e primos, embora considere pouco provável que o nome ainda corra na família. “As filhas do meu [irmão] Zé têm, as três. Mas não têm filhos. E depois, mesmo que tivessem, o nome do marido é que era o último, mas sempre podia entrar lá o Avó à mesma. O meu [irmão] Manel é que não deu à filha, que também não tem filhos portanto a geração por ali ficava. Mas o meu primo António, que mora em Salir, também tem um filho com o nome Avó, e sempre é capaz de haver um ou outro que vá vigorando”, remata.

2 Comments

  1. Encontrei agora este texto interessante e significativo para mim. A razão está no facto da minha avó ser descente da família “da Avó”, da zona da Nave (Monchique) e ter casado com José Joaquim Poucochinho, também de Monchique. Quem sabe se há para aí algum parentesco 🙂

    Maria Casimiro

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