O Rugby não é só para homens

Contrariamente ao que a maioria das pessoas pensa, o Rugby não é um desporto “masculino” ou “violento”. A falta de informação é a principal razão apontada por jogadoras e treinadores de rugby feminino para que a mentalidade portuguesa mantenha a prerrogativa de que as mulheres não podem ou não sabem praticar rugby com qualidade.

Em 2014 estavam inscritas na Federação Portuguesa de Rugby (FPR) 465 jogadoras femininas. O Professor João Mirra, pertencente à Federação, afirma que este desporto tem tido “uma grande evolução, muito devido ao aparecimento das Academias, que visam desenvolver o rugby feminino a nível regional, e ao excelente trabalho feito por todos os clubes. No entanto, embora tenha aumentado o número de praticantes em todo o país, tem sido a um ritmo inferior ao desejado”.

Em Portugal existem 16 clubes de Rugby Feminino espalhados por todo o país, mas nem sempre é fácil fazer com que as atletas optem pelo rugby ao invés de outro desporto. “Existe um grande desconhecimento do público face às regras deste jogo, e infelizmente continua a predominar a imagem de um jogo de brutos e de “molhadas”, que em nada tem a ver com o Rugby. Em Portugal, os jogos são disputados com pouco público e o facto de existirem poucas transmissões televisivas de jogos de Rugby, e as que existem serem em canal fechado, diminui a divulgação deste desporto”, explica Eduardo Leitão, diretor da equipa da Seleção Feminina de Sevens, a representação nacional do rugby feminino em Portugal.

Catarina Ribeiro, jogadora da Seleção Feminina de Sevens e do Sport Club do Porto, corrobora esta opinião ao dizer que “as pessoas têm  a ideia de que o rugby é algo muito violento, e portanto como não conhecem e também não fazem uma busca para descobrir um bocadinho mais, acho que essa ideia é a principal oponente a que as pessoas venham praticar, pois quando veem algum jogo percebem finalmente os valores que estão ligados a esta modalidade”.

Já Isabel Ozorio, jogadora da Seleção Feminina de Sevens e do Sporting Clube de Portugal, explica que “o rugby feminino já teve uma fase em que esteve muito forte, depois desceu um bocadinho há cerca de dois anos, mas acho que as pessoas pensam que nós por sermos raparigas não jogamos rugby de qualidade, e como nunca tínhamos tido uma competição da Seleção cá em Portugal, as pessoas só viam o nível nacional, que tem muitas discrepâncias no nível, pois só algumas equipas é que jogam num bom nível, e nunca tinham visto a seleção”.

No entanto, Isabel sente que as coisas têm vindo a mudar, e revela que sentiu uma grande evolução desde que a equipa venceu, em junho de 2015, no Torneio Europeu de Repescagem que deu acesso ao Torneio Mundial de Repescagem, que por sua vez pode levar a equipa portuguesa ao torneio final para os Jogos Olímpicos. Nesta competição estiveram entre 150 e 200 pessoas a assistir, e Isabel conta que “as pessoas passaram a olhar para nós de uma maneira diferente e perceberam que nós também somos capazes de jogar rugby com qualidade, porque haviam pessoas que não se interessavam pelo rugby feminino e haviam homens que achavam que o rugby feminino que existia era uma “comédia”, mas começaram a interessar-se e a fazer perguntas e reconheceram que é uma coisa muito boa porque estamos numa fase do rugby e do desporto coletivo muito importante para Portugal”.

João Mirra revela que a FPR também sente que “existem cada vez mais pessoas que acompanham o trajeto do rugby, muito devido à paixão que veem nas jogadoras. Muitos adeptos que não tinham qualquer contacto com o Rugby Feminino, e quando as viram a jogar em junho no Estádio Nacional, no Torneio Europeu de Repescagem Olímpica, ficaram surpreendidos com a prestação das jogadoras e começaram a acompanhar a nossa Seleção Feminina com mais regularidade”.

O Torneio Mundial de Repescagem para os Jogos Olímpicos vai decorrer nos meses de junho e julho de 2016 e a equipa vencedora vai alcançar o 12º lugar nos Jogos Olímpicos deste ano. O maior sonho da Seleção Feminina de Sevens é alcançar esta meta e poder ir ao Rio de Janeiro em 2016, e as jogadoras revelam que estão a trabalhar arduamente para melhorar o modelo de jogo e melhorar a condição física, acrescentando que já há dois anos que estão neste projeto para os Jogos Olímpicos.

Para isso, todas treinam regularmente nos seus clubes e pelo menos uma vez por mês as jogadoras da Seleção Feminina de Sevens encontram-se no Centro de Alto Rendimento, no Jamor, durante um ou dois dias e mediante uma convocatória específica. As jogadoras da zona de Lisboa têm a possibilidade de realizar três treinos físicos e um treino de campo por semana nas instalações do Jamor, sempre com o auxílio de um preparador físico nos treinos de ginásio.

 

 

A importância dos apoios

Como em todos os desportos, os apoios são importantes. As jogadoras são amadoras e nenhuma se dedica exclusivamente ao rugby, pelo que não existe qualquer tipo de remuneração e tudo passa por apoios e patrocínios.

As jogadoras têm uma pequena ajuda da parte do Comité Olímpico Português, que a FPR pretende aumentar este ano, e ainda podem receber bolsas académicas provenientes da Santa Casa da Misericórdia, cuja atribuição depende de vários critérios como o número de internacionalizações, capacidade técnica e provas físicas, através de uma avaliação trimestral das jogadoras.

As jogadoras da Seleção Feminina de Sevens também têm todo o acesso às infraestruturas do Centro de Alto Rendimento da FPR, como departamento médico, ginásio, e as deslocações para os treinos no Jamor também são suportadas pela FPR.

Já os clubes podem receber apoios monetários e material para treino, como bolas ou equipamentos, e estão também dependentes dos patrocínios de empresas para custear algumas atividades.

Catarina revela que a Federação tem sido um grande apoio para a Seleção Feminina de Sevens: “Tenho que agradecer à Federação por estar a aumentar o seu cuidado com a equipa feminina porque conseguimos ganhar o tal lugar, mas precisamos de mais apoios e patrocínios para que seja possível mais horários e maior preparação para que consigamos alcançar o nosso objetivo de chegar aos Jogos Olímpicos, e se não for este ano que seja daqui a 5 anos”.

 

Todas têm lugar no rugby

Embora o patamar mais visível do rugby feminino em Portugal seja a Seleção Feminina de Sevens, são muitos os clubes portugueses que procuram aumentar o seu número de jogadoras e aumentar a visibilidade do desporto feminino. “Qualquer mulher com apetência para o desporto, que seja rápida e ágil, pode ser uma jogadora de Rugby. Na página da FPR existe uma lista de todos os clubes nacionais, onde podem procurar o clube mais perto de si e dar os primeiros passos nesta modalidade”, explica Eduardo.

Catarina revela que para jogar rugby “basta ter muita garra, muita honestidade e humildade, precisamos mesmo de ter um compromisso connosco mesmos, ter inspiração diária, e também um compromisso para com a nossa equipa porque não é um desporto individual, é um desporto de equipa, pelo que devemos deixar tudo dentro de todos os treinos para que depois seja possível uma vitória no jogo, ou seja, as pessoas têm de dar tudo para chegar ao “campo de batalha” e conseguir vencer”.

Já para Isabel, o mais importante para começar é que a pessoa esteja aberta a experimentar o desporto e ignore os estereótipos. Numa fase mais adiantada, “tem que ter alguma disciplina, porque para jogar rugby ao alto rendimento é preciso fazer alguns sacrifícios, mas é sempre na perspetiva de que tudo está ao nosso alcance e nós podemos sempre fazer melhor nas coisas que nós podemos controlar, e em última análise podemos ter de nos privar de algumas coisas para ter outras que as outras pessoas nunca na vida vão sonhar, como o sentimento de estar a representar um país e uma equipa, estar a jogar em equipa, e isso são coisas que não se compram, são coisas que se sentem e que se vivem muito”.

Mais tarde, para participar na Seleção Feminina de Sevens, a jogadora é convocada na sequência de um processo com várias fases: a equipa técnica faz a observação da jogadora no circuito nacional e recebe também a recomendação dos treinadores das Academias Regionais; em seguida, a jogadora é convocada para os treinos das Academias e gradualmente vai sendo reduzido o número das potenciais convocáveis para a Seleção; quando se aproxima uma competição, os estágios que são realizados dão as últimas indicações e nesta fase a decisão final cabe ao treinador da Seleção Nacional.

Eduardo revela ainda que existe uma aposta das Associações Regionais cada vez maior na divulgação do rugby nas escolas, através da organização de torneios com as camadas mais jovens para atrair mais jogadores. Também a Federação tem tido um papel fundamental na divulgação deste desporto e inclusive tem áreas focadas no desenvolvimento da modalidade, através da promoção de diversas atividades para consolidar, fidelizar ou captar um maior número de atletas do Rugby Feminino.

No Plano Anual de Atividade e Orçamento de 2015 da FPR podemos ler que “é fundamental a criação de várias competições, através das variantes do rugby, para tentar alcançar o maior número de pessoas. As competições de Touch Rugby, Tag Rugby, Rugby de 7 para equipas emergentes (Circuito Nacional de Clubes Emergentes), Rugby de 7 Universitário e Rugby de Praia são excelentes estratégias para desenvolver o rugby”. Neste documento, a Federação afirma também que é importante apostar no rugby escolar, no rugby de integração social e no rugby de promoção, e que tentará sempre dar resposta a estas áreas, quer seja no rugby masculino ou feminino.

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